explicação, persona ou as palavras que agem?

Um conto vira verbo:  Há meses atrás comecei a escrever um conto sobre uma escritora que perdia a inspiração. O conto não acabou e eu virei personagem.

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Dia de Lixo, noite de reciclagem

Dia de Lixo, noite de reciclagem

Era dia de lixo, mas foi depois de uma grande explosão que Ana quis deixar a casa. E, na confusão do furacão, todos os habitantes esqueceram de colocar seus restos para fora naquele dia, mas isso já não importa, não mais.

Ana olhou com sinceridade aquela confusão toda ao seu redor. As roupas dela ainda estavam bagunçadas, espalhadas pelo quarto de ninguém arruma há muito tempo e algumas poucas peças ainda estavam jogadas pelo chão. Foi furacão. Por onde começar a empacotar? Por onde começar a fazer aquela mala que já passava da hora de fazer? Ana não era boa de ordem ou empacotamentos, não sabia fazer malas e por isso foi até a dispensa e catou um grande saco preto, desses de colocar lixo, só que pouco mais transparente que os normais. Era o saco mais fúnebre o possível. Era um saco breu.

Encarou o quarto mais uma vez e em braçadas largas, jogando as roupas limpas para dentro. Foi até o cesto e virou para dentro do saco. Guardou tudo o que tinha num grande saco de lixo. Depois os sapatos e todo o resto, até os clássicos ou informais. Tudo ali, num grande saco de lixo.

Amarrou a boca com força que tinha, num nó que se faria em cordão qualquer, ou num cadarço de tênis velho ou mesmo numa garganta inflamada.

Esqueceu de guardar seus livros, mas não há espaço na sacola pra tanta palavra. Pensou que poderia fazer uma outra poesia talvez, outra sacola, talvez não. Jogar palavras ao vento economizaria espaço na bolsa, que só se gosta de fazer poesia quando se sente vazio. Sozinho vazio. Vazio solidão. E o saco de lixo estava cheio por hoje. Já não há espaço para meias palavras, quem dirá palavras? Além do mais. Não há por que temer, está tudo tão cheio de poesia por todos os lados. A cada esquina um poeta ou até um poeta e meio.

E ela se esforçando tanto pra ser blasé. Se esforçando pra se agarrar num vazio, num impulso de vida que preencha todas as sacolas. Sente que se não se agarra em algo, ainda haverá cordões que liguem e prendam, ainda haverá tênis velho e gargantas inflamadas, mesmo que ela não queira. Pula no vazio, Ana, pula. Não há o que temer que no vazio não há no que se agarrar. É só pular e sem querer asas, é só sentir frio enchendo a barriga de quem não tem em quem prender. Mas ser só é tão difícil. Frio a mais, a menos, não faria diferença, ela já tinha asas quase de poeta ao meio. Ana era quase pó.

Se fosse, pulava.

Ana apagou a luz do quarto, mas amanheceu e nem havia percebido. Tudo aquilo durando tanto tempo. Já era cedo e a luz do dia entrava pela janela clara. Ela pode ver o quarto vazio de Ana, mas cheio de móveis. Móveis. E aqueles tantos porta-retratos portando retratos do que não foi. Ela via esperança ali. Sentiu um aperto. Por mais que a casa apertasse o peito e fosse pequena, doía ver aquele espaço todo vazio. Sozinho. Pegou o saco e de impulso fez um buraco com as unhas vermelhas, e como quem abre champanhe no ano novo, saiu espalhando as roupas. Primeiro o ar, depois o chão. Ela não desfez o nó, fez um rasgo e pronto. Lá em cima da rua se ouvia o barulho. Poderia ser um carro, um ônibus ou até mesmo um avião, mas era um caminhão, um caminhão de lixo. Ana mora no pé da ladeira e a rua dela tem uma mão e só, se o caminhão passa, não volta, não hoje, pelo menos. O caminhão já estava lá em cima. Passou. Agora tudo voltaria ao seu lugar e ali ficaria, até ser mais um dia de lixo ou de furacão passando e destruindo outra vez e voltar novamente. Ou até Ana cortar os nós e as asas. Se mudar do pé para o topo.

Os Natais, as entranhas e os perus

Os Natais, as entranhas e os perus

Eram dez para meia noite e todos naquela casa ainda estavam acordados, aguardando pelo momento da ceia ansiosos, ao contrário dos que estavam em outras habitações onde haviam crianças e idosos famintos e que não podiam esperar. Aquele lar que aguardava estava todo enfeitado, cheiroso com o perfume de comida e afeto, exalando por portas, janelas e frestas o pretenso amor que aguarda a hora certa, a hora marcada de ser libertado, mais até do que foi no ano passado e ainda menos do que será no que se aproxima.

Este nosso lar fica ao pé de uma ladeira do Rio de Janeiro, como tantas outras, mas ao contrário de muitas, está num bairro nobre onde a mesa era cheia e uma tinha árvore grande decorada. E na árvore tinham presentes, e os presentes eram embrulhados com papel que refletia nas lâmpadas de pisca-pisca e no peru besuntado de manteiga de receita especial.

Quando faltavam apenas cinco minutos para a ceia, a pequena Lalinha correu e pôs-se de joelhos no sofá, os olhos fixos na janela aberta, brilhando, e o pai atrás, sempre preocupado em desfazer as ilusões da vida ordinária na menina, que já ia se aproximando, e quando tomou impulso da fala de quem corta a dor na raiz foi cortado quando Lalinha gritou:

-Papai, você estava certo. É mesmo mentira! Ele é mais magrinho do que disseram e não tem barba, mas existe mesmo.

O pai, preocupado com algum devaneio de menina, de prontidão estava agora ao seu lado, olhos mais abertos que os da menina, esperançosos. Era quase meia-noite e lá do alto da ladeira vinha um homem negro e magro e camisa vermelha, sem barba tal e qual Lalinha havia visto. Ele usava shorts e chinelos e parecia a vontade com o caminhar de ladeira. O pai esfregou os olhos e abriu de novo para confirma aquilo que via. Nas mãos daquele homem, que ainda não sabemos se era pai ou não, ao invés de presentes e sacos, havia uma arma grande e lustrosa que de perto reluzia a cor das janelas das casas vizinhas, como aquelas lampadazinhas que brilhavam no papel de presente de dentro da nossa. Ainda faltava pouco para meia noite e o homem parecia sozinho, já chegando a metade da ladeira onda a casinha ficava aos pés.

Lalinha não sabia, e o pai também não, mas naquele momento aquele homem estava em muitos outros cantos da cidade, como se fosse mesmo um Papai Noel, subindo outras ladeiras, descendo algumas tantas, ou em linha reta das ruas tortas da cidade como se não fosse aquela uma noite de Natal. Estavam todos espalhados, como se também esperassem pelo momento certo e a hora marcada de liberar algo. Era como se fosse o mesmo homem caminhando pela rua, mas eram todos vários, alguns descalços, outros de chinelo e muitos descamisados, mas todos de vermelho nos olhos e armas em punho. E pais, como o nosso, observavam atentos ou ceavam, ou diziam hou hou hou, ou colocavam crianças mais cansadas que Lalinha cuidadosamente para deitar. Pais como esses que se esbarrassem nos outros achariam que eram todos o mesmo sem família que vaga sozinho pelas ladeiras da vida enquanto os homens de bem ceiam com suas famílias, colocam presentes escondidos nas árvores ou carregam para a cama as crianças que dormem cedo.

Então, quando quase deu meia noite e já quase se ouvia o galo é que Lalinha tirou a atenção do pai, fixa no rosto do homem que ali vinha pelo meio da rua da nossa casa, nesse roubo de atenção Lalinha apontou e mostrou o início.

Agora sabe-se que o homem que descia talvez não fosse mesmo de bem, mas não estava sozinho na noite de natal e, se fosse outro o caso, não estariam ele e os seus armados até os dentes. Atrás dele desciam a ladeira numa multidão gente de várias cores, todos mal vestidos e cara de desnutridos, muito diferentes entre si, mas assim como o homem tinham os olhos vermelhos e armas em punho, e não seria um mau palpite arriscar que era tudo por conta da fome.

Nessa multidão tinham famílias, quer dos homens que vinham mais para frente da ladeira quer de outros homens que se perdiam no meio da multidão.

o conto das fadas loucas – parte I

Prefácio

 A criatura mal sabia a que viera, se é que ela sabia alguma coisa sobre algo. Sentia mesmo, e aos poucos, que suas feições mudavam e que já não reconhecia mais as primeiras marcas no rosto triste quando era em frente ao espelho. Era medo do tempo. Pobre menina. Não sabia ainda, mas, como criatura, era e ainda é um punhado de argila do artista Tempo. Ver, Ouvir e Encontrar são as ferramentas do mestre.

Num encontro, num simples esbarro é que surge o retoque. O mestre Tempo, pai criador, ultimamente anda inovando e resolveu se adaptar às mudanças espontâneas da modernidade. No presente, agora passado, é artista contemporâneo excêntrico e sentimentalista. Obra cheia de emoção impulsiva, intensa e amena, inexplicável paradoxo que passa rápido, passageiro. Um retoque, e sem esforço para entender que não há entendimento: revestida do molde a que viera, ainda é uma criatura, um punhado de argila maleável do artista Tempo, como você e eu e todo mundo. E que muda. Não sabia, mas agora já não é mais de argila.

 

O criador, quando estava acelerando seu punhado na máquina de argila, tirou os pés do pedal. Girou tudo, e com uma imensidão de força centrípeta de vida que há quando se gira com força alguma coisa ordinária. A força fazia com que tudo acelerasse e ainda assim continuasse em seu lugar. Era como se corresse tal instante qualquer nos dias de hoje, como se corresse em oposição ao tédio, como correm os instantes de além da modernidade. Mas foi na hora que as coisas pararam, foi na hora exata do stop que tudo voou e saltou do chão. E foi nessa hora que aquela estátua quase pronta, quase que perfeitamente se desfigurou e voltou a ser um punhado sem identidade.

A criatura para de girar, mas o Tempo insano e insensato não, ele é insaciável. O Tempo pensou mais por uns instantes. Limpou as mãos sujas de argila na flanela velha e foi para dentro. Sorrindo, pensou o quanto é impressionante o rumo que o molde do tempo pode levar as coisas a tomar, a dimensão que ás vezes uma mudança repentina de inspiração, tomada por talento e criatividade, assume na obra final.

Deixar a criatura ali, derretendo, pingando até virar possa e evaporando até virar pó, isso seria genial. Assistir sentado a uma criatura esvaindo-se até voltar a ser nada que se possa ver que não o barro seco, isso seria uma grande experiência. E depois ela se esvaindo em pequenas partículas e se espalhando pelo vento, pelo ar que se respira até entrar nas outras entranhas de barro, sem que os narizes sintam, sem que os olhos saibam, sem que as almas vejam, isso seria sensitivo ao master. E tudo  enquanto o tempo passa.

Ver uma criatura se transfigurando por si só, numa conta própria tomada como reação a não ação temporal, isso seria inovador. Sim, seria genial, seria inovador, seria uma experiência sensitiva master.

O Tempo parou por mais alguns instantes, voltou-se para trás e viu ali a criatura, já em auto-decomposição, gerando gotas grossas de barro. Sorriu satisfeito pelo canto orgulhoso e continuou seguindo seu caminho. Sentiu a temperatura do ferro e queimou a ponta dos dedos, ficou dormente por alguns minutos, mas se recuperou rápido e pós a mão na massa: para frente, para trás e borrifadas. Havia tanto o que fazer, tanto que passar e a começar por ali.

Genial. O Tempo é mesmo um artista.

o conto das fadas loucas – parte II

Cap. I – Tourdion

  

Estou no momento exato do stop.

Stop. E sei disso porque não sinto mais as pontas dos dedos dos pés tocando o chão frio, nem a taça de vinho tinto gelada na minha mão. Não sinto as feições do meu rosto, os cílios longos coçando as bochechas e os cabelos de franja caindo nos olhos e nos ombros, sempre inconvenientemente, mas não agora.

Não reconheço nenhuma parte que antes sentia presente em mim e estou assustada, mas também não tenho forças para gritar e enquanto espero sentir qual é meu próximo passo, grito comigo mesma, me esforçando para conseguir enxergar o mundo. Grito para conseguir me enxergar no mundo, e por mais que me esforce, vejo tudo em branco e não me vejo em lugar nenhum, não reconheço nada e dentro e fora, é tudo o mesmo, e não sou eu aqui, não há vermelho por perto, é tudo branco.

A última coisa de que me lembro antes disso tudo é o meu mundo girando. Uma vertigem agonizante de pós-festa já acabada. Lembro de uma tontura diferente das outras de quando eu curto uma onda boa e sei que ninguém vai aparecer aqui por dias. Ninguém vai aparecer aqui por dias! Não se eu conseguir pedir ajuda ou socorro. Desprendo tanta força e tanta energia e nada. Parece até que eu estou morta. Não, morrer não pode ser assim, meu cérebro não agiria com tanta intensidade e eu não conseguiria chegar a pensar numa saída. Acho que não estou morta. Como estou agora seria mais como estar vegetando. É, eu poderia estar vegetando, mas isso iria contra tudo, tudo aquilo em que não acreditei por anos, iria contra muitos, todos aqueles a quem fui contra até chegar aqui estariam certos. Eu posso estar errada também, ou pode ser mais simples, pode ser só uma overdose. Explicação mais simples, mais razoável, mais sensata. Isso, overdose. Viu só como você não está bem? Procurando desesperadamente por explicações sensatas, como se existisse explicação para tudo. Você sempre soube lá no fundo que explicações não são tão necessárias, muito menos sensatas.

E como se sensatez fosse o seu forte.

É, acho que eu estou tendo mesmo uma overdose. Não que isso afaste a teoria anterior, a da morte. Quer dizer, eu posso morrer daqui a alguns segundos, se isso for mesmo uma overdose, a menos que apareça um Vincet Vega emocionado com uma seringa de adrenalina para espetar bem no meu coração, mas isso é pouco provável porque ninguém vai aparecer aqui por dias. E além do mais, o Vincent Vega da noite sumiu bem antes do final do festa.

Sendo isso o que eu estou tendo mesmo uma overdose, é até melhor já que assim eu evito uma série de crises, uma crise de identidade intensa dentro de uma crise de sei lá o que, essa crise de stop que é essa vertigem que eu estou tendo agora. É só manter a calma que as coisas se acalmam, estou tão nervosa que está dando até pra sentir o coração batendo. Isso! Viu? O seu coração tá batendo, você é gente viva!

E, além disso, não estou vendo nenhuma luz branca no fim do túnel. Para ser sincera, a menos que eu tenha ido direto para dentro da luz sem nem perceber, não há túnel escuro nenhum por perto, é tudo branco por aqui. Menos mal.

Também não vi passar vídeo nenhum da minha, nenhuma retrospectiva diante dos meus olhos, e olha que o que eu vivi nesses aproximadamente vinte anos não foi fácil não. E além do mais, eu saberia se a minha vida tivesse passado diante de mim por que simplesmente nunca fui de deixar a vida passar, ainda mais agora, mergulhada nessa ausência toda.

Sabe, essa não seria uma má idéia. Vou ter que esperar aqui mesmo até que alguém apareça, ou até que algo aconteça, afinal de contas, essa situação tem que mudar, tudo sempre muda. Vai ser bom ter algo pra fazer enquanto espero e eu odeio esperar mesmo. Eu odeio esperar.

Como assim o que eu vou fazer? Me resta algo a fazer aqui nesse estado que não pensar? E eu acredito sinceramente que estar onde estamos é uma conseqüência de como, com quem e por onde nós andamos, num efeito tipo ação e reação, então, não faria mal tentar remontar os melhores momentos, os mais emocionadamente ativos.

Ação e reação.

Ação: Você vê isso, lê aquilo, escuta aquilo outro, encontra gente, coisas e fatos. A reação é tão simples quanto o simples boneco de argila que você é hoje, você é a reação. Então lembrando coisas da minha vida, encontros únicos e escolhas inevitáveis no meu caso, contando minhas histórias, quem sabe assim eu não consiga entender o que me fez chegar até essa crise em que me encontro. Porque contar a minha história pode explicar esses devaneios todos que eu penso agora e, principalmente, o que eu me tornei – uma massa sem sentido que só pensa. Meus erros e meus acertos, e meus pensamentos por um doce, o doce do aceite. Que você aceite que se estivesse no meu lugar desde o inicio, teria acabado aqui, como eu, numa crise. Teria corrido meus riscos, teria arriscado pelos meus erros. (…)”

o conto das fadas loucas – parte III

 Cap. II – Das gerações ou Vermelho é a cor

 

 -Pelo amor, minha filha!

Sempre assim, sempre pelo amor. Era pelo amor que minha avó respondia aos apelos da neta. Vovó nunca dizia por Deus, se quer ousava. Cheguei a perguntar a mamãe o porquê, achava engraçado, queria saber. E foi assim que fui parar na primeira comunhão.

            Eram umas aulas chatas, numas salas chatas e com uma senhora, a professora, de pés também chatos, que de mim nada fizeram. Muito menos as missas que vinham antes. Delas só lembro os vitrais bonitos que refletiam a luz do sol mais brilhante que nunca no teto côncavo e azul, repleto de estrelas. Era engraçado ver como as cores que vinham com a luz de fora refletiam bonito ali dentro, todo santo domingo, tão bonito que não conseguia desgrudar os olhos delas, brilhantes, todo santo domingo, menos naqueles de quando fazia mal tempo e chuva. Mas pouco importava, domingos chuvosos eram pouco santos para qualquer uma, não restaria sequer uma tarde no parque pra uma jovem alma sorrir. Havia também domingos em que a igreja era outra, vezes por motivos de festa, vezes por viagens, preferia quando era por viagens, depois da missa aquele passeio, mamãe ao lado, sentada no banco, também estava ansiosa como eu pelo fim daquilo tudo.

            Sentada quando todos sentavam, de pé quando todos de pé, os olhos nos vitrais e os cânticos enrolados no dedo. De joelhos no segundo tocar dos sinos, o acolchoado aveludado, também me recordo dele. Alias, se tem algo de que me lembro bem mesmo dos domingos dos autos dos meus sete anos são esses acolchoados. O couro grená, macio, reconfortante, me sentia aliviada ao ajoelhar naquele couro vermelho, vermelho como no sofá de logo mais, na casa de vovó, ainda posso sentir em minha pele aquela sensação, ainda posso sentir, mesmo depois de tantos anos.   E depois, era domingo santo, sempre vinha a tão esperada hora do sofá vermelho. As aulas e as missas passavam mais rápido só de lembrar que domingo também era dia de casa da vovó e o acolchoado vermelho devia parecer tão reconfortante só por me fazer lembrar que mais tarde finalmente chegaria a hora da casa da vovó. Acho que foi por isso que a idéia de primeira comunhão da mamãe de nada adiantou.

            A minha cura estava lá e as manhãs infinitas de domingo passavam rápido de saber. Saber que aquela chatidão em forma de oratória seria seguida de um incrível gorro cossaco de chocolate cheio de granulado e com uma única, e saborosa por ser exclusivamente minha, e minha cereja. Mastigava com toda vontade e toda a força. Mastigava com prazer, tanto prazer que qualquer um me censuraria, qualquer um, mas não vovó, pelo contrário, ela sorria ao ver minha alegria e me deixava livre a saborear aquela cereja, a mais brilhante das cerejas do mundo que ela mesma havia escolhido para mim, desejava mais as cerejas de domingo do que qualquer Eva poderia desejar maçãs no paraíso, elas eram mais vermelhas que qualquer maçã poderia sonhar em ser.

            Vovó adorava vermelho! Meus olhos, seu orgulho. E eu, eu sempre soube, sempre soube que ela amava, muito mais até do que eu.

(…) “

 

Resistindo a tentação de explicar: Falta inspiração. E por mais que eu veja, por mais que fale ou ouça, as palavras desistem de escorrer pelos dedos. Prefiro acreditar que seja em protesto, e se assim for, tem surtido efeito positivo, sim, ausência de inspiração positiva, menos pelo positivismo – aquele mesmo que alguém me desejou de aniversário e me fez sorrir insolente – e mais pela positividade das energias boas se concentrando nos textos inacabados, redescobrindo as palavras que caíram no esquecimento, no meu e não do Hd. E assim, tentando dar cabo daquelas idéias antigas, resgatei esse projeto que vem da época em que escrevia manuscrito e não publicava, vem do início e do desejo de um livro desenterrado agora, uma idéia que embalo há quase três anos, poucas palavras, prefácio e dois capítulos atrás. Partindo do desleixo, idéia e pressa de ser livro, há ainda muito  que remontar, refazer, como tudo aquilo que escrevo e que está sempre me dando a sensação de inacabado, e que assim seja. E como quem quer ceder a protesto é que apresento-lhes o meu talvez primeiro, “O conto das fadas loucas” , em parte do seu segundo capítulo “Das gerações ou Vermelho é a cor”, uma apresentação seguida de desculpas de quem deixa ver a pedra antes de lapidar, sem nem mesmo saber se o valor vale o trabalho; é pelo gosto.

Ração Humana

                  O sujeito andava sem rumo pelas calçadas sujas da cidade grande já fazia algum tempo. Perambulava por entre as lojas vazias e as casas quentes de muro branco sem perceber sua cor e nem temperatura. Tanto fazia, era tudo frio e cinza há dias. E ele era um desses sujeitos a beira da inconsciência, a um passo da alma liberta, a um simples fino fio doloroso da loucura. Sua cabeça parecia perdida, procurando um jardim ensolarado a cada esquina, um arco-íris a cada cruzamento de asfalto incandescente e era possível ver as florestas queimando em seus olhos, todas aquelas cores se consumindo. E ele continuava a busca, porta a porta, vidraça a vidraça. Pobre homem, diziam os que reparavam sua figura sem feição no meio de tanta correria, seu andar cansado e lento, seu olhar perdido. Pobre deles, sem saber que aquela figura estava prestes a se encontrar, estava prestes a encontrar um paraíso furta-cor, um descanso profundo. E teria encontrado o pobre homem, teria encontrado, que sua busca louca e incansável não cessava em nada, tinha muita força e lucidez em seu andar sem rumo e continuava andando fosse o que fosse, houvesse o que houvesse. E teria continuado se não fosse aquela manhã de hoje. Hoje, ele já não parecia tão jovem e forte ao amanhecer, seu corpo era magro e a barba estava por fazer, que há tempos aquele sujeito agia sem parar, buscando a cada passo, e não parava por comida, água ou barba por fazer. E ia andando, seguindo em frente até que no caminho estava lá, estendido o corpo ensangüentado, o cabo da faca brilhando nos seus olhos e ele parou. Viu seus pés numa poça vermelha, sujos a cada passo que havia dado em silencio até encarar aquela triste criatura. O corpo era triste como o dele, parecia cansado como o dele, perdido como o dele, mas os olhos eram brancos, todos brancos e ardiam não de chamas de vida, brilhavam de refletir o sol. O nosso sujeito se aproximou e aproximou mais, estava a altura da criatura morta e colocou-se face a face. Viu nos olhos brancos agora, não mais o refletir do sol brilhante e forte, viu o seu reflexo, um homem feio, velho e fraco, o homem que se tornara sua figura, uma pobre criatura como aquela qualquer. Foi então que sentiu fome, sede e cansaço e toda a humanidade que havia acumulado, sabe-se lá aonde, faz tanto tempo, pesou tudo em suas costas. Olhou ao seu redor, a rua estava vazia, mas havia uma loja do outro lado que parecia acabar de ser aberta. A loja estava aberta, mas como as outras, era vazia. Ele não sabia e não conseguia compreender, como ninguém podia ver aquela pobre criatura ali, estirada, jogada no chão em meio aquela poça de sangue ainda quente? Levantou-se da calçada de tantas vezes que agora jamais seria igual e atravessou a rua. A cada passo uma marca de sangue na rua atravessada, suas vestimentas pingando de sangue e suor, seu corpo que pedia muito alto por pão, implorava. Na porta da loja, havia uns potes grandes de vidro que brilhavam tanto, do outro lado da calçada se podia ver, era sol de meio dia. Linhaça em grão ou triturada, granola pura ou com passas, Chá verde em folha ou pó, parou para observar o vermelho das mesmas qualidades, e então viu o pote que mais brilhava, ração humana estava escrito ali. Era o mais afastado da entrada da loja vazia, mas isso não importava, o pote era da loja de qualquer forma. Mas ele não sabia. O sujeito aproximou-se lentamente da lata brilhante e colocou os dedos ainda sujos de sangue, um por um, na tampa do pote translucido que ainda assim permaneceu. Suas calças e testa pingavam e faziam uma pequena poça nova ao redor dos seus pés. Não havia mais nada nem ninguém e ele ajoelhou. Abriu lentamente a vasilha e aproximou o rosto do pó que ali estava. A cor não atrairia uma criatura qualquer, mas sua fome era tanta, não poderia deixar de prová-la. De olhos fechados, se aproximou lentamente da farofa acumulada no vasilhame até que seu nariz afundou fazendo um pequeno buraco na montanha do pó a que viera, mas não o suficiente para que o sujeito deixasse de respirar. Foi então, e só então, certificado da respiração contínua, que o nosso sujeito abriu os olhos, mas nada viu, já era noite e não era mais meio dia. Lá se foi um dia, ele pensou, e nem se quer percebeu. Abriu seus olhos e não viu nada dessa vez, ele esboçou um sorriso. Por Deus, era noite! Finalmente era noite, ele pensou. Então deu-lhe uma linguarada no pó escuro. Dizem que quanto mais escuro, mais cores estão acumuladas e que o preto é repleto de luz e atrai o sol. O pó não tinha gosto e sua cor não era preta, era de um escuro indefinido, mas era tanta fome que ele gostou. Abocanhou então fazendo um rápido buraco na montanha de areia que logo foi coberta por mais areia. Comeu, comeu com tanta força e gosto que não engasgava e nem parecia aquele sujeito de antes, procurando arco-íris a cada esquina. Comeu cada vez mais rápido, até sentir-se satisfeito e então continuou, continuou até seu corpo dizer que estava farto nas suas orelhas e quando ouviu, deu a ultima bocada, querendo mais. Queria mais, só não podia. Então, e só então que ele tirou o rosto daquele pote imenso, agora já pela metade. Não haveria ração para a vida inteira. Aí que o sujeito pousou as patas dianteiras lentamente no chão, primeiro a esquerda, depois a direita e colocou-se de pé nas quatro patas. Olhou para frente e deu uma leve farejada. Roçou a pata no focinho que tinha um pouco de areia e então, agora livre da poeira, pode sentir o cheiro do ar. Não havia mais porque estar ali. Saiu pela rua, abanando o rabo. Logo a frente sentiu o cheiro de sangue no açougue e frangos na padaria. Seguiu andando para tentar encontrar