Sobre quando a descarga não funciona mais

A privada, a descarga da privada já não funcionava mais com aquela perfeição que demonstrara um dia. Faltava-lhe, faltava-lhe a pressão que as mãos daquele que por virtude atendesse aos apelos instintivos, ou biológicos se assim o preferir, desprenderia pela engenhosa estrutura. Faltava-lhe, além da palavra, aquela antiga pressão que levava para longe os restos pútridos da natureza humana. E diriam alguns, talvez ironicamente, era da natureza humana que dependia naquela casa o futuro da nojenta podridão produzida por aqueles que a habitavam.

Sim, dependia deles, apenas deles, mas não é de se espantar que a preguiça espontânea de alguns dos moradores fizesse com que ali permanecesse boiando aquilo que não afunda, ali na superfície da também ironicamente translúcida água, que se ocupava apenas de desvendar os odores típicos do lugar de onde advinha aquela revelação. Translúcida como havia de ser e desafiada pela dúvida de sua natureza, a água revelava com prazer os sinais da sujeira antes de fazer aquilo que naturalmente sempre fez, antes de correr, antes de passar. Desafiada, a também vingativa revelava o mau cheiro, e nem mesmo a tampa abaixada com o fim de poupar os olhos da verdade de sua essencial natureza, nem mesmo essa bendita tampa poderia ocultar tal podridão de algum outro sentido que não o dos olhos, e isso, aparentemente, já era o bastante para eles.

Não sentir era o bastante, ou pelo menos parecer não sentir. E assim seguiam numa travada luta contra a água que queriam represar, com o tempo que queriam conter.  Pouca adiantaria, e eles mal sabiam, pouco adiantaria, pois o tempo, assim como a água, tem por instinto o passar. Uma hora ou outra a tampa haveria de ser levantada por alguém e quisera deus que esse alguém fosse dos que apertam a descarga com a força suficiente para levar dali o perigo eminente da acumulação, e quisera deus esse alguém fizesse prolongar por mais alguns instantes as coisas como haviam de ser, quisera deus que fosse ela.

Quisera, mas não foi, e então, a partir desse dia que ali, naquela casa, as coisas nunca seriam, não mais, como deveriam ser e o tempo passaria diante dos olhos causando demasiada dor que somente a mais bruta das verdades poderia gerar. Foi naquele dia que as tensões entre forças na represa entre a barreira e a água erroneamente represada chegaria ao fim. Uma hora ou outra alguém haveria de ceder, pois uma tração demasiada faz qualquer tensão pender, nessas situações em geral ganha o mais forte, em geral pois se é que ganha alguém.  Nesse dia quem ganhou foi a água. Foi sim, foi nesse dia que a revoltada água invadiu com força a casa, inundando o ar, e fazendo tanto os olhos, como todos os sentidos possíveis, sentirem a aquela natureza crítica, foi naquele dia:

-Que merda!

-Como, meu bem?!

-Que merda é essa?!

-Aonde?

-Aqui, na privada!

-E não é onde ela deveria estar, querido?

-Não, ela não deveria estar aqui, não deveria.

-E o que deveria ela ter feito, meu bem?Que outro lugar tem a merda se não a privada?

-Não deveria estar à vista, não a minha vista! Ora essa! Deveria ter corrido seu curso, ter se juntado ao esgoto da cidade e depois se perdido no mar, não sei.

-É só apertar com força, será que você não vê, meu amor?!

-Até quando vamos ter que continuar com isso?

-Até chamarmos alguém que concerte, podemos pagar por isso, amor.

-Até quando?Até quando?

-Não já lhe disse, isso passa, me dê mais um tempo que eu resolvo, amor.

-Pois eu não posso mais resolver isso, nem você, por mais força que façamos, não há mais tempo.

-Creio que dê querido, eu tenho algumas economias, esqueceu, amor?

-Não, eu não te amo mais.

 -Eu sei.

-Sabe?

-Eu sinto.

-Como, quer dizer… é tão visível assim?

-Não, não é. Eu apenas sinto.

-E porque nunca disse nada.

-Porque era mais cômodo fingir que não havia nada. Eu ainda te amo, apesar de tudo, de tudo isso, eu ainda te amo, por favor, não vá, não me deixe.

-Eu devo…

-Não, por favor, eu lhe imploro, por favor, não vá! Vai doer mais, mais do que nunca!

- Eu tinha que ver… se consigo dar um jeito nessa descarga, não dá pra viver assim.

-Sim. Eu sei.

-Não podemos mais viver assim, não podemos.

 

É impressionante a força que um homem pode fazer nos tempos de hoje, toda a dor que pode suportar, toda essa água,tanta pressão,  todo esse mundo, tudo bem nas suas costas, a pesar bem nas suas costelas. Se fossem só eles, só os dois, como antigamente, Adão e Eva no paraíso, ainda seria cedo, ainda haveria tempo.  Mas a tarde já havia passado e agora já era noite, umas seis horas no relógio da parede. Logo as crianças chegariam naquele lar, como sempre e uma hora haveriam de chegar, haveriam.  Já era hora do jantar e a comida já estava servida por ela mais uma vez.

 

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